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CRÍTICA DA SÉRIE COISA MAIS LINDA

Há pouco tempo, mais especificamente no dia 19 de junho, Dia do Cinema Brasileiro, a Netflix lançou a segunda temporada da mais nova série brasileira, Coisa mais linda. A produção tem pontos positivos e negativos, mas tem seus acertos em detalhes visuais que ajudam a torna-la mais interessante e a prender a atenção do público.

Criada por Giulliano Cedroni e Heatlher Roth e com direção geral de Caito Ortiz, traz alguns elementos da nossa cultura brasileira que são de reconhecimento não só aqui, mas também muito no exterior, sendo uma produção “de época”, e a música e a transferência da capital brasileira do Rio de Janeiro para Brasília. Mas isso não é o foco. O principal, e isso fica bem claro, são as quatro mulheres: Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejesus), Ligia (Fernanda Vasconcello) e Thereza (Mel Lisboa), mostrando toda a trajetória das personagens.

SOBRE AS PERSONAGENS

A personagem que dá toda a partida na construção da história da série é Maria Luiza, da elite paulistana, filha de um pai rico, o Ademar (João Bourbonnais) e casada com Pedro (Kiko Bertholini), que desaparece quando fala que vai para Rio de Janeiro em busca de abrir um restaurante, mas ela descobre que ele a traiu e fugiu com todo o dinheiro desse projeto. É constantemente chamada de Malu por outros personagens. Ela resolve então abrir uma boate com o nome de Coisa Mais Linda. É responsável também por descobrir o cantor boêmio Chico (Leandro Lima), que toca músicas do novo estilo, a Bossa Nova. Maria Luiza tem uma forma diferente para o tratamento do rapaz, não colocando o relacionamento entre os dois como a coisa mais importante, e sim o desenvolvimento do restaurante de poder fazer com que ganhe reconhecimento. Este é um ponto bem interessante da personagem, que é bastante julgada pelo pai por ter deixado o seu filho sobre os cuidados dos avós em São Paulo.

Temos a personagem Adélia, uma jovem negra que vive na periferia carioca. Mãe da Conceição e ainda é responsável pela irmã mais nova, Ivone (Larissa Nunes), e tem um relacionamento com o músico denominado Capitão (Ícaro Silva). Nessa personagem é bem interessante a forma como é colocada na história por mostrar o preconceito, por exemplo, o uso do elevador do prédio em que ela trabalha. Adélia vira amiga de Malu e acaba sendo sócia do clube Coisa Mais Linda. Mesmos sendo uma das donas do lugar, é confundida com empregada ou garçonete, e assim sofre situações racistas e também machistas.

Outra entre as quatro personagens principais é Ligia, amiga de infância de Malu que é casada com Augusto (Gustavo Vaz), candidato a prefeito do Rio. Ela vive um relacionamento totalmente de fachada e envolvido pelo conservadorismo, abusivo, sofrendo agressões e até mesmo estupro. A característica da personagem é que sempre quis cantar, mas por conta do casamento teve que desistir desse sonho para ser a “bela, recatada e do lar”.

Por fim, temos a Thereza, que é uma jornalista. A personagem tem ideias totalmente fora dos padrões determinados para a época, coisas que eram julgadas como anormais ou algo do tipo. Ela é concunhada de Ligia e tem um casamento aberto com Nelson (Alexandre Cioletti). Na primeira temporada, Thereza é a editora chefe da revista feminina Angel, na qual era a única mulher a trabalhar até a chegada da amadora escritora e modelo, Helô (Thaila Ayala). Além disso, as duas personagens têm um breve caso amoroso.

E A SEGUNDA TEMPORADA?

A segunda temporada já começa com momentos em que Malu tem lembranças e também como está lidando com o trauma da perda de uma das personagens, a Ligia, são mostradas cenas com tanto amor de uma amizade muito intensa entre as duas personagens. Além de mostrar Malu e Thereza sentindo culpa pelo ocorrido.

Na primeira temporada, Malu começa a buscar a saída do que a sociedade impunha, esse pensamento permanece na segunda temporada, de não ser mais “a mulher direita” ou “a mulher perfeita”. Isso é bem mostrado nos primeiros episódios, quando o Coisa Mais Linda já não é mais um clube de música, e sim um restaurante. Isso acontece com a volta do marido de Malu, Pedro.

A produção da série brasileira da Netflix é bastante interessante, caprichada e bonita no visual estético. A fotografia mostrando perfeitamente detalhes de um Rio de Janeiro dos anos 60 faz sentir que você está próximo a momentos vividos pelos personagens. Sem contar que o figurino com cores bem intensas que eram costumeiras do período é perfeito para as composições de cenas, mostrando o cuidado das mulheres serem tão feitas, como se fossem bonecas, clássicos saltos altos e roupas marcando a cintura. E para os homens, blusas por dentro da calça com o sentido de bem engomados. Coisa Mais Linda também acertou muito na escolha da trilha sonora, sendo MPB e o samba, que é bastante mostrado no morro onde Adélia mora com a família. Um ponto bom para entender onde nasce esse gênero musical. A música da introdução que não combina muito por ser “Garota de Ipanema” em inglês e isso me incomodou, por ser uma série de produção brasileira. O negócio é que capricharam muito nesses quesitos e a série é “linda demais”.

A nova temporada traz momentos das batalhas para manter e ter o clube na ativa, algumas mudanças de planos, como a separação de Thereza e Nelson, Adélia e Capitão, sendo que Adélia acaba se separando por conta do que ainda sente por Nelson. Isso porque anos atrás os dois tiveram um caso. Além disso, mostra momentos do funcionamento da rádio brasileira e o ambiente de trabalho vivido por mulheres da época.

Algo negativo da produção é a forma com que o roteiro é feito. A forma de passar algumas mensagens para o público é esforçada demais e são até bem entendíveis, mas ainda são colocadas coisas óbvias na fala de personagens para que realmente sejam entendidas. E outra coisa que pode incomodar é um momento em que a personagem Adélia vive que é muito mais que importante e é tratado como uma coisa rápida e resolvida de uma vez só em um único episódio, sem tantos momentos para explicações. Uma coisa que deixa a série um pouco menos interessante.

Apesar desses momentos do roteiro, a série não fala apenas de questões sexistas, mas também passa por cenas que envolvem escancaradamente o racismo, conflito de classes sociais, a religião, lugar de fala, rivalidade feminina, relacionamento LGBT, a mulher no mercado de trabalho, aborto e o feminicídio, algo que acontece na primeira temporada e justificado na segunda como algo ocorrido “sem querer por amar demais”.

Pode parecer, mas as personagens não são totalmente feministas ou se declaram como feministas, a não ser a Thereza, que as vezes é questionada se é ou não por conta das suas defesas feitas, modo de agir e pensar. Mas elas buscam ser olhadas de outras formas e poderem fazer qualquer coisa que realmente tenham vontade fora do padrão imposto por uma sociedade conservadora. E entrando nessa questão é muito importante que se entenda que todas as mulheres precisam do feminismo, mas precisa-se entender a diferença da luta que cada personagem enfrenta e os privilégios e os não privilégios que têm. O exemplo mais nítido da série são as personagens de Malu e Adélia. Maria Luiza é rica, herdeira, branca, alfabetizada, com a cara da alta sociedade. Nunca foi barrada nos lugares e nunca foi confundida com uma empregada. As roupas são as mais chiques, joias caras e sapatos de grife. Já Adélia é negra, analfabeta, mãe solo, periférica, não tem os pais e trabalha até altas horas para poder levar o sustento para casa.

Na segunda temporada, assim como a primeira, me questiono como algo confortável para aquelas massas que defendem o feminismo ou defendem as minorias, e essa sensação vem de quando as personagens sempre têm uma “recompensa” pelo sofrimento, não é que isso seja bom ou não seja gostoso assistir, mas talvez desse uma importância pelas situações vividas por cada um ao longo da trama.

Coisa Mais Linda é uma produção brasileira que a segunda temporada tem seis episódios com uma duração entre 40 e 50 minutos cada. Apesar de algumas falhas no roteiro, é uma série que prende e te faz querer saber mais sobre o que acontecerá com cada personagem e de qual forma ele vai agir sobre determinado assunto imposto na trama. A sensação do machismo colocado no decorrer da história é muito incômoda. A produção teve suas evoluções em alguns momentos e vale a pena assistir para acompanhar que tipo de mensagem, de movimentos e de questões sociais transparecem no decorrer da obra.





 
 
 

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